Prospecta Mundo

Parte integrante do Instituto Futuro da Universidade Federal de Pernambuco, o Observatório do Front é um fórum de debates sobre temas emergentes na contemporaneidade do cenário mundial. Compromissado com os objetivos do IF e imbuído de reflexão crítica, o Observatório do Front concebe esse espaço de debate como um lugar de onde se deve prospectar as emergências do futuro presente.

I

Desde que a sociedade global tem sido estabelecida sobre valores e práticas consumistas, engendradas pelas relações capitalistas, com suas obsolescências programadas e esgotamentos dos recursos naturais do planeta, o tempo presente parece que se dilatou. Finda a Guerra Fria, o capitalismo vitorioso possibilitou o descarte dos sonhos utópicos, tornando os futuros, projetados em imagens de progresso, em futuros passados.

À vertigem de um presente dilatado e incessante somou-se a nauseante necessidade nostálgica por passados que alimentassem nossas fantasias de procedências históricas e perenidades culturais. O fin-de-siècle XX foi marcado pelo boom dos museus e sua respectiva monumentalização dos passados presentes. Da obsolescência da vida econômica para a pós-vida como monumento, os objetos viraram índice de nossas angústias diante da inevitável aceleração do tempo.

Foi aí, então, que o futuro retornou; mas como recalque. Agora, já não mais como sonho de progresso; mas como medo da finitude. Não mais o tempo de um futuro distante e perene, como nos projetos teleológicos da modernidade ocidental; mas como vórtice iminente a nos sugar para os lugares das incertezas e das ausências de garantias históricas.

No dizer de Débora Danowski e Viveiros de Castro (2014, pp. 29 e 31, respectivamente): “[…] quando as escalas da finitude coletiva e da finitude individual entram em uma trajetória de convergência […]” é que parece que tomamos consciência da “[…] enorme distância entre conhecimento científico e impotência política, isto é, entre nossa capacidade (científica) de imaginar o fim do mundo e nossa incapacidade (política) de imaginar o fim do capitalismo.”

Entretanto, e por isso mesmo, seguimos concordando com os autores acima quando afirmam:

“Não há como discordar […] em particular do argumento de que, se as ciências ‘naturais’ do Sistema Terra são capazes de parametrizar e modelar quantitativamente a evolução geofísica da crise planetária, a contribuição das ciências humanas é entretanto indispensável para se compreenderem as consequências sociopolíticas, se articularem as respostas possíveis e se firmarem os compromissos aceitáveis por parte de uma ‘humanidade’ que se apresenta imediatamente como dividida em coletivos dotados de interesses e entendimentos variáveis e conflitantes a respeito dos valores vitais, e cuja situação futura, em geral, será provavelmente tão diferente do Capitalismo Mundial Integrado de hoje quanto do mundo medieval ou das sociedades paleolíticas […].” (DANOWSKI; CASTRO; 2014, p. 21)

Se é para o futuro que nossas angústias presentes nos forçam a olhar, é igualmente de elementos futuros feitos presentes que poderemos esperar sobreviver ao porvir. Que fique bem claro que não estamos propondo adivinhações sobre um futuro impalpável; antes, referimos-nos a um olhar atento, espectante, voltado para a frente, para o defronte no tempo, a fim de perscrutar quaisquer elementos que nos indiquem como reconstruir o presente. Falamos não de um futuro concebido como alheio a nós, conjuntos de objetos ainda sem ser; mas, ao contrário, queremos dizer, por futuro, tudo aquilo que seja possível vir a ser presente. Assim entendemos o prospectar.

A imagem do front, o conceito chave mesmo para compreendermos os objetos de estudo da observação/prospecção proposta a partir deste lugar de fala, deve ser entendida, portanto, como coincidindo com a noção de horizonte de expectativa, tal qual na reflexão teórica sobre o tempo histórico em Reinhart Koselleck (2006). Para ele, a expectativa pelo porvir se traduz em um olhar para o horizonte. Linha distante, e que, ainda assim, está sempre se renovando, não obstante nosso movimento ou o movimento do tempo, o horizonte se torna figura emblemática para compreendermos essa relação dialética que temos com o futuro.

A relação com o passado se constitui a partir da noção de experiência. Mas o conjunto dessas, ao se relacionar em feixes, pela memória incessante, dispõe nossa relação com o passado como que através da metáfora do espaço. O conjunto de experiências emerge nas nossas consciências como um campo, um espaço de referências construídas continuamente. Porém, a expectativa pelo porvir ainda não se configurou em espaço. É apenas espacialidade possível, ainda por vir, se configurando apenas como linha no horizonte.

Mas há uma relação dialética entre o espaço de experiência e o horizonte de expectativa. Assim, afirma Koselleck (2006, p. 312):

“Quem acredita poder deduzir suas expectativas apenas da experiência, está errado. Quando as coisas acontecem diferentemente do que se espera, recebe-se uma lição. Mas quem não baseia suas expectativas na experiência também se equivoca. Poderia ter-se informado melhor.”

É da tensão entre esses elementos que emerge e se estrutura o tempo histórico. É da necessidade de não encerrar a experiência em uma clausura passada, abrindo-a ao presente, que o espaço de experiência se expande, e se dilata em linha de horizonte. Do mesmo modo, é como possibilidade de vir a ser que o horizonte de expectativa, tornando-se presente, entra para o campo do espaço da experiência.

O front constitui-se nesse terreno borrado, sem bordas nítidas e definitivas, oscilante pela passagem constante do tempo, em que linha de horizonte se torna campo, espaço; ao mesmo que tempo que, continuamente, faz recuar à frente a linha de novos horizontes. O front é onde a expectativa do porvir dialoga com a experiência do vivido. É na cartografia incerta desse terreno imaginário que devemos prospectar os elementos de mundo que nos ajudarão a seguir sonhando a existência terrena, societal e histórica.

 

II

O front, seja em sua acepção de espaço seja em sua dimensão de horizonte, é sempre uma categoria social. Daí porque devemos tanto pensar teoricamente a questão do próprio conceito de fronteira quanto empregarmos tal reflexão para refinar análises ulteriores.

É nesse sentido que começamos a perceber os limites da nossa temporalidade futura como relativa a um horizonte de expectativa ocidental. Horizonte de expectativa que, através do próprio desenlace da evolução da modernidade ocidental, terminou por se distanciar de seu par categórico, o espaço de experiência. Assim, nosso horizonte de expectativa ocidental tem-se tornado cada vez mais insuficiente para solucionar os problemas que nossa própria civilização nos impõe, como o impasse entre, de um lado, o capitalismo, e, de outro, o colapso ambiental.

Nesse ponto de injunção em que diversos objetos de estudo se inscrevem no próprio front, entre os horizontes de expectativas e os espaços de experiências, é que propomos três agendas de atuação neste observatório.

À primeira caberá a prospecção dos elementos epistemológicos que possibilitam mesmo uma tal experiência de mirar para o horizonte do front, procurando explicitar que objetos aí emergem, com que escopos e com que implicações. Essa agenda, intitulada “Futuros possíveis, reservas erráticas”, será da curadoria do Prof. Alexandro Silva de Jesus. Em suas próprias palavras:

“Limite de qualquer curadoria que tome o futuro por matéria: só será possível pensá-lo como uma espécie de presente estendido, desdobrado, amanhã de hoje e de ontem; plenamente reconhecível, portanto. Partindo dessa premissa, o exercício de curar o futuro se cumprirá, aqui, a partir de quatros gestos: Primeiro, será necessário pensar o conceito de futuro – e de futuros possíveis -, fundamentado sobre a  percepção do homem como criatura preventiva e erótica. Em seguida, pensar o  futuro do Negro, precisamente, sobre a dilatação adventícia de seu conceito e sujeitos, e de sua repercussão sobre o futuro (ou ausência de) da modernidade. Depois, será o  futuro da experiência de Universidade que se quererá perscrutar, a partir de dois eixos, a saber, o de sua justificação e o de seu ritmo.  O gesto derradeiro atravessará todos os outros  desde o começo, e terá valor de  ponte que urdirá o conceito de futuro, o futuro do conceito de Negro, e o de Universidade.”

A segunda agenda concentrará seus esforços de prospecção na questão ambiental. A urgência da questão a inscreve no cerne da experiência atual de reavivamento dos medos que nos acometem quando diante da expectativa de eventuais fins. Aqui será de crucial importância, e munindo-se de uma coragem serena, discutir temas como o aquecimento global, as mudanças climáticas, a crescente aceleração das extinsões em massa e mesmo o polêmico “ponto de não mais retorno”. Para sondarmos o front desse terreno, estará à frente da curadoria dessa agenda, intitulada “O Oceano. A chave para o futuro”, o Prof. Marcus André Silva. Em suas palavras:

“De berçário da vida na Terra a depósito final de tudo que não mais interessa a humanidade, os oceanos apresentam-se como componente fundamental à manutenção do clima e da vida no planeta. Entretanto, nos dois últimos séculos, o crescimento acentuado da humanidade exigiu do planeta um aporte de recurso energético que produziu uma mudança de cenário jamais registrado. O crescimento das metrópoles, um incessante aumento na produção de energia baseada na queima de recursos minerais e a expansão das áreas dedicadas a produção agropecuária, tem causado uma provocante mudança de como devemos olhar para os oceanos. Se para alguns setores da sociedade os oceanos apresentam-se como a mais nova fronteira para o aumento da produção de energias, este já vem recebendo os impactos oriundos do desenvolvimento acelerado e acumulado dos séculos passados. Giga, ou melhor, Petatoneladas de lixo – do excesso de CO2 emitido à atmosfera e absorvido pela sua superfície, passando por lixo atômico, dejetos industriais das mais diversas fontes, e mais recentemente até o lixo doméstico vem aparecendo nas discussões, principalmente pela questão do plástico. A capacidade de resiliência dos ecossistemas marinhos e de equilíbrio climático vem sendo colocada dia a dia à prova. Estratégias de desenvolvimento das metrópoles e da população passando pelo uso consciente de recursos naturais dependem de como trataremos os oceanos, para que assim estas ações produzam o efeito esperado. Os oceanos e seus ecossistemas são fundamentais para a vida em todo o Planeta. As condições e consequências futuras para a Terra virão das ações e da capacidade de mobilização dos diferentes setores da sociedade hoje no cuidado com os oceanos.”

Desses cenários atuais que demarcam as frágeis fronteiras desse lugar de observação sobre o por vir, o mais imediato talvez, embora não menos impactante, é o da geopolítica das relações internacionais. Com o sonho da modernidade ocidental virado em futuro passado, os alicerces do edifício histórico do Estado nacional se esfacelam a olhos vistos. Direitos humanos, direitos civis, direitos trabalhistas, todos parecem estar sendo limitados, se não removidos do campo do espaço de experiência contemporânea.

As soberanias, antes inscritas no povo-nação, parecem se diluir, para se agrupar, aos poucos, aqui e ali, em torno às prerrogativas do grande capital corporativo. Com suas prerrogativas nacionais sendo desmontadas, de suas ruínas aparecerá uma outra forma de Estado, ainda por vir. Mas, ainda que esse processo se encontre bastante avançado, ao considerarmos a dimensão geopolítica, apreendemos entretanto que os Estados ainda são os atores nesse grande jogo que são as relações internacionais. Com a aceleração da corrida pelo que ainda resta dos recursos naturais, os mercados precisam ser cada vez mais garantidos, o que exige uma nova estruturação das alianças estratégicas entre o capital e os Estados. Assim, aquele urge desses cada vez mais o emprego de políticas de controle, que vão de medidas protecionistas ao enfrentamento militar com outros interesses. Dessas preocupações, emerge a terceira e última agenda, intitulada “A geopolítica da guerra que vem”, e cuja curadoria será feita pelo Prof. Daniel de Souza Leão Vieira. Assim, em seus próprios termos:

“A questão a que queria chamar a atenção aqui procura fazer ver a importância de se construir uma ordem política mundial baseada na multipolaridade, capaz assim de se sobressair à incapacidade de interesses econômicos particulares em prover a estabilidade mundial.

O problema aqui é que o projeto de hegemonia estadunidense no século 21 tem levado ao crescente embate entre a OTAN – Organização do Tratado do Atlântico Norte – e a OCS – Organização para a Cooperação de Xangai. Já previsto nas teorias de Zbigniew Brzezinski (1997), o grande jogo, verdadeiro eufemismo para a conquista da heartland eurasiana, tem levado à emergência de uma política de relações internacionais baseada na unipolaridade em torno da hegemonia estadunidense. Esse projeto tem solapado a possibilidade de diálogo com os diversos atores globais, dos quais notadamente a Rússia e a China, não por acaso duas grandes nações eurasianas, e disseminado caos em pelo menos três cenários regionais, como alguns observadores vêm chamando a atenção:

1) no Oriente Médio, sobretudo em relação ao projeto de mudança de governo na Síria por motivos econômicos ligados à implantação de um gasoduto e um oleoduto de interesse qatari e saudita;

2) a montagem de um cerco econômico, político e militar na Europa oriental, notadamente entre o Mar Báltico e o Mar Negro, através da implantação de sistemas defensivos nucleares em países da franja leste da OTAN; e

3) no escalonamento da confrontação diplomática e militar na Ásia, tanto em relação ao problema da soberania no Mar da China Meridional quanto à crescente agressividade na península coreana. A não ser que nos disponhamos a debater essas questões, não conseguiremos avançar pensando sobre o futuro. Simplesmente porque é cada vez mais iminente o fato de que poderemos vir, em breve, a não ter futuro nenhum.

Portanto, devemos nos perguntar: diante de fronts que começam a surgir, e rapidamente, será que a nossa grande batalha não é justamente a de levantar esse debate em prol da bandeira da paz? Talvez a nossa urgente fronteira de futuro seja justamente a construção de uma plataforma de debate sobre esses temas urgentes. Tal forum permitiria a compreensão mútua necessária para enfrentarmos conjuntamente os desafios postos pelas mudanças climáticas no século 21 e, sobretudo, para a manutenção duradoura da paz mundial!”

É chegada a hora de darmos início às atividades de prospecção de todas essas questões urgentes. Convidamos toda a comunidade universitária e a sociedade em geral a se envolver e tomar parte desse esforço coletivo de pensarmos que contribuição a construção do conhecimento acadêmico pode vir a dar diante de tal quadro. Os desafios serão enormes e gostaríamos de contar com ampla participação nos debates a fim de que possamos construir o entendimento conjunto e cosignado de que precisamos de uma sociedade economicamente mais justa e mais consciente do cuidar para com o que o poeta Zé Ramalho certa vez se referiu como esse “asteróide pequeno que todos chamam de Terra”!

 

Referências bibliográficas

 

Brzezinski, Zbigniew. The Grand Chessboard. American Primacy and its Geostrategics Imperatives. Basic Books, 1997.

Danowski, Débora; Castro, Eduardo Viveiros de. Há mundo por vir? Ensaio sobre os medos e os fins. Florianópolis: Desterro / Cultura e Barbárie / Instituto Socioambiental, 2014.

Koselleck, Reinhart. Futuro Passado. Contribuição à semântica dos tempos históricos. Rio de Janeiro: Contraponto/Ed. da PUC-Rio, 2006.

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