V PROSPECTA RECIFE

QUINTO PROSPECTA | RECIFE
Biênio 2016-17 – “O Futuro da Técnica e do Planeta”.
O Assunto: “O Futuro do Ambiente”
Dia 27 de Outubro – 16:00 horas
Biblioteca Central – Auditório 3
Editorial

“Velho Chico” está vazio. No Amapá, pororoca não existe mais. Em Minas, 1200 pequenos rios foram eliminados. De-cadência coincide com expansão da monocultura, mas lu-cros calam as críticas (Roberto Malvezzi: Outras Palavras, 4/10/2016).
(… ) E falar de vida, dignidade e território é outro horizonte de sentido que parece indicar algo diferente de liberdade, igualdade e fraternidade, horizontes em que direita e esquerda vêm se mantendo. Enfim, para além do capitalismo e da colonialidade. Carlos Walter Porto-Goncalves, 2009.

Ambiente, Meio, Mundo vivido, Natureza, todos estes termos se referem a vida no e do Planeta Terra. O mundo adota o termo “ambiente” (Unwelt, millieu, environment) para significar “o conjunto de condições, leis, influências e interações de ordem física, química e biológica, que permite, abriga e rege a vida em todas as suas formas”, segundo a Legislação brasileira para o Meio Ambiente. Um pouco diferente, o nosso país acolheu o uso das duplas palavras de mesmo sentido “meio-ambiente”, mas, fato é que o significado de Ambiente corresponde a compreensão de “eco-sistema”, de visão sistêmica da vida no Planeta, onde tudo e todos fazem parte de uma mesma natureza.

Neste quinto encontro do Instituto Futuro deste Biênio 2016-2017, cujo percurso escolhido tem foco na Ética, queremos refletir sobre o futuro do nosso Planeta, a casa de todos nós, como diz a Carta da Terra .

Adotamos o termo “Ambiente” para prospectá-lo a partir das condições físicas, químicas e biológicas em que se encontra o Planeta e, ao mesmo tempo, com a mesma intensidade, também “prospectar” o papel da Ética, do cuidar da natureza e de todos os seres vivos, que deveria estar expressa nos comportamentos dos seres humanos e não esteve, ao menos desde o século XVI, quando se firmou a ideia de que o Planeta era algo sem vida.

Segundo Galimberti – um dos nossos “curadores” neste Biênio 2016-2017 – o ser humano, diferentemente dos demais animais, não teria um “ambiente”, mas um “mundo” que ele aprendeu a construir para viver, para superar sua deficiência de instintos. Durante a Evolução ele não se firmou em um único habitat, mas aprendeu a sempre ir em busca de mundos possíveis para sua sobrevivência. Para Galimbert, o fazer, que distingue o homem dos demais animais, fez existirem os instrumentos que durante muito tempo foram as extensões do próprio ser humano, carente de instintos. Teriam sido esses fazeres, as raízes das diversas culturas humanas.

Entretanto, ao longo do tempo, muitas dessas culturas – notadamente no Ocidente – foram se distanciando de uma relação de cuidado com o ambiente circundante, foram perdendo o conhecimento de que somos partes intrínsecas do ambiente no qual vivemos. Parece que de alguma maneira sedimentamos a ideia nociva de que a natureza estava posta para bem servir-nos. Mas Galimberti (2006) lembra que nem sempre fomos assim, que no passado evolutivo do ser humano os primitivos

não tinham nenhuma dúvida em sepultar o defunto com os objetos do seu ambiente, como não o sepultariam sem seu braço. Eles sabiam que a taça na qual ele bebia, a faca de que se servia e a roupa que habitualmente vestia compunham um todo único com o seu corpo (p. 93).

Em algumas culturas orientais e entre nações indígenas, essa relação de inteireza, de indissociabilidade entre os seres humanos e os objetos do seu mundo persiste e resulta em modos de vida diversos daquele do mundo do lucro e do consumo no qual vivemos. Nosso mundo ocidental, globalizado, consumista, capitalista, que assim foi se estruturando por variados motivos, deixou de entender Homem e Mundo como um sistema, ou como um tecido, como a ele se refere Fernando Huanacuni, no video que faz parte deste Quinto Prospecta. Ele alerta que se puxarmos um fio da meada, ela pode ser desconstruída, e é o que estamos assistindo.

A relação dos seres humanos com o ambiente foi se tornando mais e mais uma relação de dominação, de exploração, não apenas do ambiente pelo homem, mas de seres humanos contra seres humanos e pior, esse comportamento foi se tornando uniforme, homogeneizando as diversidades culturais, a medida que a tessitura foi sendo quebrada. E a cultura é a expressão dos comportamentos das comunidades humanas.

Temos, pois, de um lado, um planeta vivo, mas idoso e principalmente doente, se exaurindo em sua capacidade de gerar vida digna e de viver ele próprio dignamente, mesmo que ainda dê indícios de ser capaz de se refazer, em iniciativas isoladas, aqui, ali. De outro, temos uma humanidade insensível ao Planeta, ainda se comportando como se dele não fizesse parte, como se sua capacidade geradora de vida fosse infinita, ou Infinitamente a disposição do ser humano.

De um lado, portanto, a exploração dos recursos naturais, visando o lucro, faz com que os cientistas do denominado Working Group on the Anthropocene (WGA) digam que com nosso comportamento entramos em uma Era geológica de fim do Holoceno e de início do Antropoceno. As características (talvez irreversíveis!) desta Era são a poluição da terra e do ar, a devastação da camada verde (protetora) do solo do planeta, a devastação da camada de ozônio, protetora do clima, a perda de vida submarina, a extinção de espécies as mais diversas, a escassez de água, sem a qual não poderá haver vida. Esse grupo nos alerta que, com o fim do Holoceno, o Planeta esgotou a sua capacidade de ser resiliente.

Do outro, num olhar ético sobre o comportamento humano submetidos ao poder do Capital, arriscamos a cada dia de perder o que Win Wenders (2016) chamou de “sentido de lugar”, um “sentido de pertencimento que vamos precisar cada vez mais a medida que avançamos no nosso futuro global” (p. 62). Esse sentido de lugar que é responsável pelo fortalecimento das culturas e das solidariedades entre os povos.

Os meios de comunicação, mesmo os já controlados pelo Capital, não cessam em nos mostrar a devastação da natureza, a devastação das solidariedades humanas, das nossas capacidades empáticas, das sutilezas culturais.

Assustados com a situação, pelos quatro cantos do Planeta a palavra de ordem é “sustentabilidade”. Mas será ainda possível pensar na ideia de “sustentabilidade” como esperança de futuro? Se o termo já foi criado, desde o Relatório de Brundtland, em 1988, como um meio de, ao mesmo tempo não “alarmar” o mundo e, principalmente, de não arrefecer os lucros da sociedade do capital?

É certo que pouco a pouco o termo sustentabilidade absorveu a necessidade de mudança de comportamento nas sociedades mundiais – de mudança civilizatória. Mas será que contemporizando com o poder do Capital uma mudança civilizatória é possível? Segundo Noam Chomsky, as elites corporativas vão sempre tentar tirar vantagem de quaisquer ações disponíveis para garantir a continuação de seus lucros (In Mitchell e Schoeffel: p. 518-519).

Então, uma questão que precisamos “prospectar” é – com o cenário de desastre ecológico iminente e de desumanidades assustadoras – se ainda será o termo “sustentabilidade” aquele que devemos perseguir. Outra questão se encontra no fato de que boa parte dos pensadores e ecologistas consideram que investir na Educação seria a ação capaz de conseguir a “mudanca civilizatória”. Todavia, também é preciso prospectar: como a Educação pode possibilitar no prazo – que se encurta dia a dia – de vida do Planeta, uma mudança de paradigma comportamental e ambiental? Como enfrentar com a Educação as forças do capital? Ela que precisa de um tempo que o planeta parece não já não ter?

Em meio a essas interrogações, a irresponsabilidade social dos poderes políticos persiste, a pobreza continua injustamente permanente, e permanentes são as desigualdades sociais de toda espécie, em variadas regiões do Planeta. A perda de território de populações inteiras do mundo, de lugares encanecidos por causa das guerras sempre odiosas (justificadas no lucro da industria de armas) obrigam-nas a emigrarem sem qualquer segurança de vida digna futura.

Então, que perspectivas temos de salvar o ambiente, os nossos mundos vividos, o nosso Planeta, em prol das gerações futuras e desta, atual, se a luta por uma sobrevivência primária ainda toma cada segundo de vida de mais da metade da humanidade? Como vamos conseguir nos reconectar olisticamente com o ambiente?

Na contramão da busca pela “sustentabilidade” (que, segundo os críticos do desenvolvimento sustentável, sugere continuarmos convivendo com um mundo que quebrou modos de vida, com um desenvolvimento que contemporiza com o capital ao mesmo tempo em que esconde o comprometimento do futuro), intensificam-se as críticas dos especialistas, dos movimentos sociais, dos ativismos político-ambientais.

Buscam alternativas não apenas pela via longa da educação, mas pela via imediata da Cultura e da Ética: uma mudança no modo de produzir e de consumir, uma possibilidade de reconexão homem-natureza.

Ativistas como a escritora canadense Naomi Klein nos dizem que “as mudanças climáticas são uma convocação para um despertar civilizacional”; que “a solução para o aquecimento global não é consertar o mundo, é nos consertar a nós mesmos”, justamente porque precisamos dessa mudança de comportamento para continuarmos existindo. Sua proposta é partir do reconhecimento das contradições e complexidades do ser humano (“horrendo e cheio de solidariedade e compaixão”) para “pensarmos quais sistemas trazem à tona nosso melhor e nosso pior self”. Em entrevista ao Jornal Outras Palavras (1/12/2015), Klein acredita ser possível captar as energias solidárias da Ciência para apoiar as mudanças de comportamento geral.

Ao mesmo tempo, surge um conceito alternativo ao de “sustentabilidade”: o conceito de “bem viver”. Sua proposta é construir uma nova história, uma nova democracia, pensada e sentida a partir do respeito aos povos originários, a diversidade, a natureza: aprender com as culturas que resistentemente conseguiram manter íntegras as relações homem-natureza. Como propõe Alberto Acosta, um dos líderes deste movimento, o conceito de
desenvolvimento “ocidentalizou” a vida no Planeta, enquanto o Bem Viver propõe “um viver com o nosso e para os nossos”, com a consciência de que, inevitavelmente, nosso destino é comum.

O “ar puro” que vem do movimento “bem viver” apresenta a possibilidade de aprendermos com culturas que o foco na descendência ocidental da paidéia grega nos negava conhecer, respeitar. O Bem Viver não propõe que fiquemos a espera de um dia conseguirmos educar ecologicamente a humanidade, mas que mudemos já a nossa maneira de viver, de habitar o Planeta, de habitar nossa casa, nossas cidades, praticando a solidariedade com a natureza e com as pessoas. Uma proposta de mudança que pode começar logo a ser praticada e que os Movimentos Ocupe, urbanos, assim como as práticas de eco-agriculturas saudáveis, rurais e peri-urbanas já vem experimentando. A Carta da Terra (2012) nos diz que, “para chegar a este propósito é imperativo que nós, os povos da Terra, declaremos nossa responsabilidade uns para com os outros, com a grande comunidade da vida, e com as futuras gerações”.

Considerando que continuamos enredados pelos ditames e práticas quotidianas do Capitalismo; considerando que as populações – notadamente a brasileira – não dá sinais de querer sair de seus confortos consumistas, predadores, egocêntricos – como conseguir aumentar o tempo de vida do Planeta, dos Seres Vivos, da Humanidade? Uma união de forças – conquistas científicas solidárias somadas a uma proposta de prática de vida também solidária é possível?

Com esses questionamentos e essas possibilidades, compusemos a Mesa que provocará as discussões do Quinto Prospecta|Recife. Neste mês de Outubro estaremos prospectando o Futuro do Ambiente com

  • Sociólogo Gustavo Costa Lima. Professor do Programa Regional de Pós-
    Graduação em Desenvolvimento e Meio Ambiente – PRODEMA, da UFPB.
  • Cientista Político e Economista Pedro Rafael Lapa. Ativista da Associação da
    Juventude Camponesa Nordestina – Terra Livre.
  • Engenheiro Agrônomo Francisco Roberto Caporal. Doutor em Agroecologia,
    Campesinato e História, professora do Departamento de Educação da UFRPE
    (aguardando confirmação)
  • Como Mediador, o biólogo Felipe Pimentel Lopes de Melo, chefe do laboratório
    de Ecologia Aplicada da UFPE.

Desta vez trazemos como “conferência-luz” a declaração do boliviano Fernando Huanacuni, ativista do Bem Viver, em entrevista a Martín Vilela, da Plataforma Boliviana frente ao Cambio Climático, em Junho de 2012. O link segue para conhecimento:

Fernado Huanacuni: Buen Vivir
https://www.youtube.com/watch?v=9oZHJMTcfOE

Como sempre lembramos que o Prospecta | Recife tem o propósito de ser um espaço aberto de debate e reflexões de fronteira, de transversalidade mutidisciplinar e de participação pública. Daí a dinâmica que praticamos:

1) Um trecho de video-conferência (conferência-luz) é apresentado ao público (máximo
10 minutos);
2) Os convidados expõem suas ideias sobre as provocações feitas pelo Instituto Futuro (máximo 15 minutos, cada um);
3) O mediador sintetiza, conecta as falas, faz suas reflexões e abre
o debate para o público (máximo 10 minutos).

Contando com sua presença e participação,
Saudações a todos,
Professora Maria de Jesus de Britto Leite
Coordenadora do Instituto Futuro UFPE

Para saber mais:
BRUNDTLAND, Gro Harlem. Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento
– 1988. Nosso Futuro Comum (Relatório Brundtland). Rio de Janeiro:
Fundação Getúlio Vargas, 1988.
CARTA DA TERRA. http://earthcharter.org
MITCHELL, Peter R. SCHOEFFEL, John. Para entender o Poder. O melhor de
Noam Chomsky. Rio de Janeiro, Bertrand Brasil, 2005.
GALIMBERTI, Umberto. Psiche e techne. Sao Paulo; Paulus, 2006.
GUIMARÃES, R. A ética da sustentabilidade e a formulação de políticas de desenvolvimento. In: VIANA,
G. et al. (Org.) O desafio da sustentabilidade. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 2001.
PORTO-GONÇALVES, Carlos Walter (2009). Ecologia e Capital: Quando a Teoria Não Esquece o
Mundo. Revista Iberoamericana de Economia Ecológica, Vol. 12: 85-90.
SANTOS , Laymert Garcia dos. A virtualidade da biodiversidade. In Politizar as novas tecnologias. O
impacto socio-técnico da informação digital e genética. Sao Paulo: Editora 34, 2003.
STAHEL, Andri Wener. Capitalismo e Entropia: Os Aspectos Ideológicos de uma Contradição e a
Busca de Alternativas Sustentanvéis. In: CAVALCANTI, Clovis (org). Desenvolvimento e Natureza:
Estudos para uma Sociedade Sustentável. São Paulo: Cortez,1998.
WENDERS, Win. Cinema além das fronteiras. In Cassiano Elek Machado. Pensar a Cultura. Porto
Alegre: Arquipélago Editorial, 2013.

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