O Futuro da Comunicação

O tema “Comunicação”, terceiro tema do Biênio 2016-2017, dá continuidade as nossas
prospeções sobre “O Futuro da Técnica e do Planeta”.

É sempre importante lembrar que a compreensão de Técnica, neste Biênio, está baseada no
pensamento dos nossos “curadores” – o italiano Umberto Galimberti e o brasileiro Laymert Garcia. Com maneiras e abordagens diferentes mas coesas, os dois apontam a Técnica como uma criação humana que foi necessária para a superação de perdas de instinto no Curso da Evolução. Mas, os nossos curadores também “cuidam” em nos mostrar que vimos transformando a Técnica e dotando-a de um tipo de poder que nos faz hoje termos nos tornado espécies de “funcionários” dessa Técnica, ou da Tecnosfera, como gosta de denominar Laymer Garcia.
A Comunicação se constitui em um dos muitos aparatos técnicos criados pelos seres humanos. O termo é vasto e abrange condições diversas da vida humana, nos forçando a ter de escolher como primeiro foco da comunicação, “os meios de comunicação” e a discussão sobre como eles incidem na experiência humana, na vivência, e certamente considerando principalmente a atual situação brasileira, embora o problema seja mundial.

Apoiados em nossos “curadores”, lhes propomos prospectarmos mais uma vez no caminho da Ética que, desta vez, foca na Responsabilidade Social e na Empatia, como base para uma compreensão sobre o Futuro da Comunicação. Isso porque importa discutir a comunicação não apenas sob a ótica dos avanços tecnológicos, da rapidez com que as informações são veiculadas ou da estonteante dissolução das distâncias, mas do ponto de vista da busca pela vida digna.

Laymert Garcia (2003), se referindo ao Manifesto escrito por Donna Haraway, apresenta uma preocupação de ordem sócio-política relacionada a já propalada relação entre a tecnociência que nos teria transformado em cyborgs. Tema já muito discutido desde os Anos 80, esse nosso “curador” brasileiro chama atenção, já não mais para a transformação do homem em cyborg, mas para o fato de que essa transformação faz parte de um projeto de dominação, de busca por uma linguagem que faça desaparecer a resistência, as diferenças; para a “tradução do mundo em informação digital; e dos seres vivos em informação genética”; para a tradução do próprio Planeta Terra em Cyborg e abalando a compreensão de “natureza humana”, de Evolução das espécies (p. – 276-281).

Umberto Galimbert (2006), nesse mesmo contexto, ao discorrer sobre os processos de
massificação e atomização dos indivíduos diz que

A palavra “massa” deriva do grego mâza, que indica a massa de pão, e deu origem a palavra mássein, que significa “preparar a massa” ou, mais exatamente, “amassar”. Já a origem etimológica indica o caráter informe da massa e a sua fácil adaptabilidade as mais diversas formas (p. 691);

diz que a mídia não é um “meio” mas um “mundo” e que as pessoas vêem televisão ou utilizam a internet não para dispor de informação, “mas simplesmente porque estão no ‘mundo” e que a televisão, a internet, simplesmente descrevem e ampliam a descrição desse “mundo” (p. 722-725).

No item “A comunicação tautológica da mídia”, nosso “curador” italiano discorre sobre uma sociedade que “está” conformista e sobre um mundo cada vez mais idêntico oferecido pela mídia, com palavras também cada vez mais idênticas colocadas a disposição.

As mil vozes que enchem o éter abolem progressivamente as diferenças que ainda subsistem entre os homens e, aperfeiçoando a sua homologação, tornam supérfluo, se não impossível, falar na primeira pessoa. Desse modo, os meios de comunicação deixam de ser meios, porque em seu conjunto compõem aquele mundo fora do qual não é possível ter uma experiência diferente (p. 723).

Os dois pensadores apresentam um problema que é denominado de “ponto de vista único” e que vem sendo praticado nos meios de comunicação, numa orquestração bem urdida por
diversas forças, marcadamente aquelas que detêm o poder do Dinheiro.

O impressionante é que esse “olhar caolho” se estende até aos modos de experienciarmos o mundo, o que torna a situação da existência ainda mais dramática.

Se pensarmos, de acordo com o neurocientista francês Alain Berthoz (2004), que a Empatia- entendida como a capacidade de nos colocarmos no lugar do outro – surge, no Curso da Evolução, da necessidade do ser humano de perceber o espaço pelo ponto de vista do outro como um modo de ampliar seu conhecimento de mundo, então esse poder da experiência deixa de fazer sentido, ao não mais experienciarmos o mundo, mas sermos direcionados a olhar sempre por um mesmo prisma, o que torna ainda mais alarmante o problema da massificação, porque se trata de colocar viseiras na pessoas.

Sao muitos os pensadores que comungam desse entendimento e que discutem a vida, a política, os comportamentos por essa via. Noam Chomsky (2005) diz que a Mídia está apenas levemente aberta a dissidências, que os veículos de comunicação atuais são corporações altamente lucrativas e ligadas a outras ainda maiores e que a comunicação foi transformada em um negócio, pois os veículos de comunicação já não vendem notícia, mas vendem leitores a outras empresas. Vendem público privilegiado a outras empresas. Esse modo de abordar a Comunicação acrescenta a esta “prospecção”, os conceitos de “persuasão”, de “propaganda” e de “mercadoria”, as reflexões sobre o Futuro da Comunicação e das pessoas e ainda amplia a discussão sobre a diferença entre “informar e formar”, se quisermos botar Adorno (2003) na discussão.

Sem que seja uma situação nova, pensadores são consonantes em buscar não apenas entender o momento atual da Comunicação, mas em vislumbrar caminhos que se contraponham a situação estabelecida. De Aristoteles `a psicóloga Carol Gilligan, a busca pela força da voz, pela dimensão do cuidar, a discussão é ética. Se Aristoteles, que, em Política diferenciava voz (phono) de discurso (logos), caracterizando o discurso como ação deliberada, Habermas propôs a Ação comunicativa e Paul Ricouer, a Forca da Narrativa, para a proteção das culturas.

A psicóloga Carol Gilligan (Between Voice and Silence) propôs não uma ética da Justiça, mas a Ética do Cuidado e, atualmente, Nick Couldry faz uma reflexão sobre porque a voz importa se detendo justamente sobre a possibilidade de a Mídia desempenhar seu papel ético de ouvir, de analisar e de dar voz a sociedade, se contrapondo a tendência neoliberal de guerra por audiência, de priorizar o mercado em detrimento do bem estar.

O Convite, então, é para “prospectarmos” sobre qual base filosófica deve estar assentada a Comunicação para que vislumbremos um futuro onde ela atue não como um meio de manipular, mas, ao contrário, como um modo de praticar o respeito humano, contribuindo para a ampliação das possibilidades individuais e coletivas de um mundo justo. Isso, seja nas relações interpessoais, seja na mídia.
No dia 25 de Agosto, então, “poderemos “prospectar” a relação entre “Comunicação” e alguns conceitos e entendimentos de “Liberdade”; Alienação; Respeito; Informação; sobre como os Meios de Comunicação podem contribuir para um Futuro digno para os seres vivos e para o Planeta. Termo central para um universo de conhecimentos do qual também fazem parte as novas formas de mobilização social, também podemos prospectar sobre a busca de alternativas para acabar com a desigualdade de direito a voz, em ser ouvida a polifonia humana, como diz o pensador brasileiro Luiz Mauro Sá Marinho. E também para enfrentar o sentimento de crescente desconfiança nas informações veiculadas pela mídia.
É justamente o pensador britânico Nick Couldry que apresentamos como o nosso terceiro conferencista-luz, que se refere aos tempos atuais como um tempo de crise da voz, o que desde o início já causa estranhamento, se consideramos que também vivemos o tempo da interatividade facilitada pela internet.
Conferêncista-luz:
Nick Couldry – Voiceblind: on some paradoxes of the neoliberal State
https://www.youtube.com/watch?v=Lchbcll7hF8

Nick Couldry é professor de Meios e Comunicação na Goldsmiths University of London. É autor de muitos livros, entre eles, Inside Culture (SAGE 2000); Rethinking the politics of voice (Continuum, 2009) e Why Voice Matters: Culture and Politics After Neoliberalism (Sage, 2010). No Brasil ele ainda não foi publicado.

O Prospecta Recife tem o propósito de garantir o espaço do debate, dando ênfase a manifestação da opinião pública. Daí a dinâmica que praticamos:
1) Um trecho da conferência-luz é apresentado ao público
(máximo 10 minutos);
2) Os convidados expõem suas ideias sobre as provocações
feitas pelo Instituto Futuro (máximo 15 minutos,
cada um);
3) O mediador sintetiza e conecta as falas e abre o debate
para o público (máximo 10 minutos).

Palestrantes convidados:
Filósofo Sandro Sayão (professor Filosofia e Direitos Humanos UFPE)
Jornalista Heitor Rocha (professor Comunicação UFPE)
Jornalista Sheila Borges (professora Comunicação UFPE)

Mediador
Arquiteta Julieta Leite (Professora Arquitetura e Sociologia UFPE)!

Contando com sua presença e participação,
Saudações a todos,

Professora Maria de Jesus de Britto Leite
Coordenadora do Instituto Futuro UFPE

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